Paulo Bressiani é engenheiro ambiental formado pela Universidade de São Paulo e com especialização em recursos hídricos pela Universidade Lund, na Suécia. Ele é fundador e CEO da Fazenda Cubo, uma operação de agricultura urbana/indoor localizada no bairro de Pinheiros, em São Paulo.
Para entender mais sobre seu trabalho, a SLOWSHOP conversou com ele. Confira a entrevista abaixo!
SLOW – Quando vc teve a ideia de criar uma fazenda indoor em São Paulo? Existem muitas na cidade?
PB – Comecei a namorar essa ideia em 2015 quando vi notícias sobre as primeiras fazendas verticais nos Estados Unidos e no Japão, mas foi apenas em 2018 que decidi dedicar-me integralmente neste projeto que veio a se tornar a Fazenda Cubo, inaugurada em janeiro de 2020. Aqui em São Paulo ainda tem apenas uma outra fazenda Indoor além de nós.
SLOW – Quais são as vantagens de cultivar hortaliças em um ambiente controlado?
PB – As principais vantagens são o controle do clima, a limpeza do ambiente para evitar pragas e doenças e a proximidade com nossos clientes. Gostamos de dizer que nossos ambientes de cultivo são spas de plantas, nos quais buscamos oferecer as melhores condições para o desenvolvimento delas.
SLOW – Em termos nutricionais, os alimentos cultivados de maneira tradicional levam vantagem em relação aos cultivados na fazenda indoor?
PB – Isso vai depender da qualidade dos nutrientes fornecidos para as plantas em cada um dos casos, por isso não acho que seja possível generalizar uma regra. De forma geral, plantas nutritivas são plantas saudáveis e isso se nota pelo aspecto visual das folhas, pela sua durabilidade e seu sabor. O que posso dizer é que nossas plantas se sobressaem muito bem nestes quesitos por todo cuidado que temos no cultivo delas.
SLOW – Quais são as hortaliças que o consumidor vai encontrar na Fazenda Cubo?
PB – Nós cultivamos mais de 40 espécies de hortaliças na fazenda cubo, entre folhas para salada, ervas aromáticas, flores comestíveis e brotos. Algumas das principais são alface, rúcula, agrião, espinafre europeu e manjericão basílico. Também trabalhamos com algumas variedades mais exóticas, como o manjericão limão, o mini trevo roxo e o anis hissopo que são deliciosos e com sabores muito especiais.
SLOW – Quais as hortaliças que precisam do contato do sol e da terra?
PB – A hidroponia funciona bem para plantas de ciclo curto, ou seja, que tem crescimento rápido e um porte pequeno, como as folhosas que mencionei acima. Plantas um pouco maiores como tomate, repolho, quiabo, tubérculos e frutíferas precisam crescer na terra.
SLOW – Você pode falar um pouco sobre essa motivação da Fazenda Cubo de aproximar o plantar do comer?
PB – Acredito que estar próximo da origem dos nossos alimentos é fundamental para nossa saúde física e mental. Física porque alimentos dos quais conhecemos a origem são alimentos frescos, com ingredientes conhecidos e que nutrem de verdade. Mental porque comer é nossa principal forma de nos relacionarmos com o mundo, de forma que comer alimentos industrializados é se desconectar do mundo natural. Infelizmente, esse afastamento é o que mais vemos hoje, numa realidade em que é difícil saber de onde nossos alimentos realmente vêm. É justamente isso que queremos reverter, trazendo o cultivo de alimentos para perto da cidade e envolvendo nossos clientes no processo, levando comida de verdade direto da plantação para a mesa das pessoas.

SLOW – As fazendas indoor são uma solução para a produção de alimentos diante do aumento da população mundial e crise climática?
PB – Um problema tão amplo e complexo como esse precisa de um leque de soluções que também seja amplo. Não existe uma solução única. Acredito que as fazendas indoor sejam uma das ferramentas deste leque. Ao meu ver, a principal ferramenta para melhorar a produção de alimentos, recuperando habitats naturais e fornecendo alimentos de verdade para a população, seja a agricultura regenerativa. Neste contexto as fazendas indoor funcionam como um laboratório de testes e um canal para aproximação das pessoas nas cidades à produção de alimentos. A trajetória da Fazenda Cubo reflete isso, pois começamos com uma fazenda indoor em um bairro central de São Paulo, como uma semente no meio da cidade, e hoje temos a maior parte da nossa produção vindo de uma fazenda nos arredores de São Paulo, com cultivo em estufas e canteiros regenerativos em implementação.
SLOW – Você tem um plano de crescimento de produção? Quais os desafios e projetos futuros da Fazenda Cubo?
PB – Sim, estamos expandindo nossa produção com a construção de novas estufas e novas áreas de agricultura regenerativa, recuperando uma antiga fazenda de eucaliptos, na nossa área em Franco da Rocha, a apenas 40km de São Paulo. Nosso maior desafio é que este é um negócio intensivo de capital, que requer constantes investimentos, principalmente neste início. Felizmente, nossas hortaliças têm sido muito bem recebidas pelos nossos clientes e demanda não falta. Por isso, estamos muito motivados, cheios de projetos e ideias para o futuro.
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